terça-feira, 10 de agosto de 2010

Eu quero sangue, não ouro...


"Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta diz: compra o teu tempo.

Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto

Não cabe no meu canto."

(Hilda Hilst - Poemas aos Homens do nosso Tempo)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Quem me dera ter esse túmulo


E ASSIM EM NÍNIVE

"Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

"Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois costume é antigo
E aqui em Nívine já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém pertuba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

"Não é, Ruanna, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho."

Ezra Pound (tradução de Augusto de Campos)

sexta-feira, 30 de julho de 2010

03:00 AM (31/07/2010)


Deus, fazei-me nunca esquecer dessa madrugada. Minha fé não foi restaurada, mas pude lembrar que ainda existe.

P.S: lembrei-me de Dostoiévsky, é preciso ser atutêntico para ter fé.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Non, je ne regrette rien!


Jornalista: - Costuma rezar?
Edith Piaf: - Sim, pois acredito no amor.

J: - Se fosse dar um conselho a uma mulher, qual seria?
E.P: - Ame.
J: - A uma jovem?
E.P: - Ame.
J: - A uma criança?
E.P: - Ame.

domingo, 25 de julho de 2010

Homem-lata



Um temporal se aproxima
a lata baila na estrada
um carro passa
amassa sua sina

O alumínio-espectador
em Deus Pai insistia.

O destino (dado),
a latinha,
à orfandade o alumia.


P.S: não sou ateu, mas queria ser.

sábado, 24 de julho de 2010


agonia é poesia sem saída
é vida não refletida
lágrimas endurecidas
sem sombra ou luz
palavra que não rompe ou dilui

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Estrangeiro


Invejo-me
pois deixei-me.
Restou-me a ausência de mim.

Infelicidade é latência.
Caminha a alma ambígua
(a memória na língua)
adiante.

E sigo errante, moribundo,
estrangeiro à história
de meu mundo.

Mas essa solidão,
essa angústia,
esse "não sei" até sabe Deus quando
põe-me pra frente como nunca.